Africatarina
Campo de Estágio



O campo de estágio que atuei durante a disciplina de Estágio Curricular Supervisionado I no semestre 2023/1 do Departamento de Música (DMU) no CEART da UDESC foram as oficinas de percussão de rua do Africatarina, que ocorreram sempre às sextas-feiras, com início às 19h, no Instituto Arco-Íris, centro de Florianópolis (SC).
As oficinas são gratuitas e completam seu ciclo iniciado no final de março de 2023 indo até o carnaval de 2024.
Os encontros são no espaço físico do Instituto Arco-íris, que é uma ONG criada em 1997 por profissionais de saúde, familiares e pessoas portadoras de HIV e outras Infecções Sexualmente Transmissíveis com o intuito de amparar e auxiliar no acesso à direitos para pacientes de risco, trabalhando também com redução de danos associados a usuários de drogas ilícitas e promovendo cidadania e acesso à direitos básicos para populações em situação de vulnerabilidade e exclusão social. É um trabalho construído por redes interdisciplinares e por isso também atua com atividades de teatro, dança, música e artes visuais.
O espaço físico do Instituto acolhe oficinas diversas de percussão em grupo, capoeira, pintura, colagem e outras atividades associadas à instituições como o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) da rede de saúde pública municipal. O Instituto Arco-Íris fica no logradouro da Travessa Ratcliff, esquina com o calçadão da Rua João Pinto, ocupando um espaço importante na geografia cultural da cidade. O prédio é antigo e dividido de forma simples em dois salões, o cenário do salão central é composto por portas e janelas em estilo colonial, com pé direito muito alto, o que interfere no eco da voz e na reverberação dos instrumentos. Nesse salão maior, de mobiliário há apenas uma cortina colorida, algumas cadeiras e duas mesas de madeira. A paleta de cores do espaço é branco, amarelo palha, marrom claro e azul marinho nas esquadrias. Por conta das diversas atividades desenvolvidas ali naquele prédio, algumas pinturas, ilustrações e desenhos estão espalhadas pelas paredes.



Instituto Arco-ìris,
Centro de Florianópolis.


A história do grupo Africatarina, que ensaia neste espaço - mas também do lado de fora, ocupando a rua ao lado do prédio - transpassa a trajetória pessoal do próprio organizador, regente da bateria e coordenador artístico, o mestre Edinho Roldan, que conta o surgimento do grupo partindo de seu trabalho com o Bloco Rastafari, ainda em meados dos anos 90, que durou cerca de 11 anos. Após o alavancamento da trajetória desse grupo, que chegou a ter em torno de 80 ritmistas, o mestre conta que o coletivo se dispersou por questões da vulnerabilidade social que se encontravam aqueles jovens e adolescentes batuqueiros. Após a dissolução do bloco Rastafari e com essa visão - de ímpeto para transformação da realidade - Edinho iniciou, em 2001 (22 anos atrás) o Africatarina, um projeto que abrange a proposta de trabalhar com música e cultura afro-brasileira através de oficinas e formações contínuas que buscam promover impacto social, integrando linguagens partindo principalmente da música e da dança oriundas do Samba-Reggae. As oficinas do grupo ocorrem semanalmente de forma gratuita guiadas pela metodologia do "TATUTI" proposta pelo Mestre Edinho e as pessoas que compõem o grupo são diversas em faixa etária, raça, gênero e classes socioeconômicas.
Planos de Aula
O plano a seguir apresentado corresponde a um projeto de estágio intitulado "A virada do samba-reggae entoa a união entre África e Santa Catarina" orientado pela Prof. Dra. Sandra Mara da Cunha, contendo três aulas iniciais - devidamente ministradas e avaliadas - que contém o seguinte objetivo geral:
Na foto, Edinho Roldan, no detalhe a cartolina com a linha rítmica do "TATUTI", principal proposta pedagógica trabalhada pelo Mestre de cultura popular nas oficinas do Africatarina.
Perceber e conscientizar sobre como tocar percussão em grupo, utilizando-se de exercícios que desenvolvam percepção rítmica através do corpo e trabalhem noções de estruturas de pulsação, tempo e subdivisão.
Após as aulas iniciais, outras aulas foram projetadas e aplicadas conforme o calendário do semestre. Para acessar o documento integral do projeto de estágio clique no botão abaixo.
Plano de Aula 01
Tema: pulsação, tempo e contratempo.
Objetivos específicos
- Desenvolver a percepção rítmica através do corpo;
- Compreender conceitos de pulsação, apoio e impulso;
- Praticar jogos e brincadeiras que ajudem a internalizar um ritmo.
Conteúdos
- A divisão em 4 tempos (semínima) e sua pulsação no corpo;
- O contratempo na subdivisão (colcheia) e sua relação com o corpo;
Metodologia
Ao início do encontro será proposta uma roda para que as pessoas possam se olhar mutuamente o quanto possível, auxiliando no reconhecimento e integração do grupo. Um momento curto de alongamento e aquecimento com posições que privilegiam a região do pescoço, ombros, braços, cotovelos e pulsos, bem como as articulações de tornozelo e joelho.
Após esse contato inicial com o corpo será solicitado que o grupo inicie um andamento revezando os pés, mas parados em seu próprio lugar, com a criação de uma massa sonora nesse impulso único, inicia-se a verbalização das “cabeças” de tempo, onde o pé se encontra com o chão, sinalizando a divisão em 4 unidades nomeadas por seus números que, na estrutura de pulsação para o samba-reggae, representam os tempos que completam a linha da caixa, ou a linha principal trabalhada no exercício do “TATUTI” em todas as aulas pelo Mestre Edinho.
Uma vez reconhecida a ordem desses números na pulsação, eles são identificados na cartolina que estará visível para todos e todas na sala e retornando ao exercício da pulsação através do passo, a sequência de identificação evolui para a percepção do contratempo, da vogal “e” em relação aos números que são “cabeça” de tempo.
Quando o grupo estiver bem familiarizado com o lugar e a duração do “e” (do contratempo) em relação ao 1, 2, 3 e 4 (do tempo na pulsação), a vogal é identificada na cartolina e passamos para um exercício interativo de desenvolvimento da percepção rítmica e musical através da palma.
O jogo consiste em, ainda em roda, as pessoas integrantes do grupo acentuarem primeiro as cabeças do tempo com a palma, sem voz. Após isso, é a vez de acentuar o contratempo.
Com o desenvolvimento dessa percepção, indica-se a quem está na roda que bata palma apenas em tempos não tão fáceis de localizar - como o “e” do tempo 4, ou apenas o tempo 3 - percebendo as limitações e dificuldades de cada pessoa no grupo.
Por fim, uma roda de “flechas” através das palmas é sugerida para que haja, com a palma nos tempos fortes da pulsação, um revezamento entre pessoas através de um gesto indicativo que “passa o acento da palma” para alguém escolhido na roda. A proposta dessa interação final é variar o grau de dificuldade através do andamento da pulsação ou do local de acentuação, bem como, despertar para a necessidade de troca e consciência com as outras pessoas que integram a roda e estimular interações que possam ajudar na relação de confiança entre o grupo.
Ao fim da rodada, é separado um tempo curto para feedbacks e impressões sobre a prática, bem como eventuais dúvidas sobre as estruturas de pulsação.
Recursos
- Instrumento para marcação da pulsação (agogô);
- Canetas marcadores (2 unidades com cores diferentes);
- Cartolina (1 unidade);
- Fita Adesiva.
- O corpo de cada integrante.
Avaliação
Como primeira aula, considero um sucesso a abertura e desenvoltura do grupo perante a proposta. Foram ao total 38 pessoas participando. Iniciei a aula com os alongamentos e aquecimentos devidos, em seguida partimos para a pulsação através do corpo, utilizando os pés para marcar um tempo definido. Com a pulsação já alavancada, iniciamos um andar pelo salão da prática, em diferentes direções, de forma aleatória, para que as alunas pudessem sentir essa pulsação no caminhar e, pra que através do olhar, as pessoas se conectassem umas às outras, já que se trata de um grande grupo que toca junto. O planejamento da primeira aula não foi realizado por completo, demonstrando o tempo que aquele grupo tem para a assimilação do conteúdo.
A sensação que fica é que planejei coisas demais para um curto tempo, sendo que foi impossível tentar a proposta com a cartolina e as canetas para a grafia do Método do Passo, por questão de tempo e também para não sobrepor a metodologia do TATUTI (objetivo central das oficinas do grupo, nesse momento), já exposta numa cartolina na parede do salão.
Com a adesão entusiasmada de todas as pessoas participantes, pude expor o conceito de pulsação, traçar um paralelo com o andar, o corpo e o ritmo da vida humana, e demonstrar como podemos encontrar as cabeças de tempo (1,2,3 e 4) e o contratempo, na figura da vogal "E". Para esse último tópico, demonstrei a relação entre o contratempo (vogal E) e a guitarra do Reggae, cantando a música "No Woman No Cry" de Bob Marley.

Data - 05/05/2023
Acima, vídeo feito durante caminhada com pulsação na primeira aula, junto ao quadro do "TATUTI" em detalhe.
Plano de Aula 02
Tema: percepção musical e rítmica, subdivisão.
Objetivos específicos
- Conhecer exercícios de alongamento e aquecimento favoráveis à prática da percussão;
- Compreender ritmo e subdivisão;
- Subdividir uma determinada pulsação com a voz e com o instrumento.
- Exercitar, de forma criativa, percussão instrumental em grupo.
Conteúdos
- Exercícios de aquecimento e alongamento para articulações dos ombros, cotovelos e pulsos;
- Pulsação e subdivisão em 4 tempos através de semicolcheias;
- Criatividade na música em práticas de percussão instrumental.
Metodologia
Ao início da aula é solicitado que o grupo fique em formato de roda para fazer uma revisão das noções de pulso, tempo e contratempo e sua relação com o corpo apresentado na aula anterior. Essa revisão é dada de forma ativa, com todas e todos integrantes da oficina em pé, executando a pulsação nos pés, cantando a divisão entre tempo (representado nos números 1,2,3 e 4) e contratempo (vocalizado através da vogal “e”).
Com a identificação da incorporação dessas duas variáveis pelo grupo, é apresentado a ideia de acrescentar uma nova vogal à pulsação - também escrita na cartolina, referência visual para o grupo -, dessa vez a letra “i”, que figurativiza a subdivisão em semicolcheia, completando o tempo, os intervalos possíveis entre a “cabeça” e o contratempo.
Feita a devida representação da letra na cartolina e a compreensão visual da interação com os outros dois elementos previamente trabalhados, partimos para trabalhar exercícios de incorporação da vogal “i” na pulsação através do corpo e da voz. Com todas as pessoas em roda, pulsando a subdivisão com seus corpos, é proposto jogos de identificação do “i” (da semicolcheia) em relação a vogal “e” (contratempo) e os números (tempos fortes na pulsação).
Após uma rodada de interações com esse novo elemento apresentado, é reorganizada a roda entre todas as pessoas da oficina, dessa vez com os instrumentos em mãos. A proposta da finalização é a criação de uma composição coletiva, através da pulsação em 4 tempos, onde cada pessoa poderá se utilizar da consciência acerca da subdivisão (em semínimas, colcheias ou semicolcheias) para criar sua linha, que deverá se manter a mesma dentro da estrutura, ao longo de toda a rodada. Com um agogô marcando os tempos, de forma individual, cada pessoa acrescenta à estrutura de pulsação em 4 tempos um “pedaço” do que pode ser o ritmo final, cuidando para deixar espaço livre para as próximas pessoas que integram a roda. Ao final, passando pela roda toda onde cada pessoa acrescentou seu pedaço, um ritmo inusual terá sido coletivamente criado, uma composição coletiva passível de ser rapidamente apreendida e analisada como instrumento didático, por sobre onde podem ser feitas intervenções, pausas, improvisos e etc.
Ao fim do jogo musical, um momento de fala para dúvidas e colocações é aberto para que as pessoas integrantes da aula possam contribuir ou se expressar sobre o que foi realizado.
Recursos
- Instrumento para marcação da pulsação (agogô);
- Canetas marcadores (3 unidades com cores diferentes);
- Cartolina (1 unidade);
- Fita Adesiva.
- Instrumentos de percussão variados para cada praticante;
- O corpo de cada integrante.
Avaliação
Mais uma vez, iniciamos as aulas com alongamentos e aquecimentos devidos porém dessa vez pedi para que as participantes fechassem os olhos por 30 segundos, para ajudar a "aclimatar" a chegada do grupo naquela sexta-feira (que é sempre turbulenta e cheia de estímulos) e após, andamos pela sala marcando uma pulsação e se conectando através do olhar, reconhecendo um ao outro. Ainda nesse andar, sugeri que acentuássemos com palmas algumas partes do tempo variando entre cabeças de tempo (apoio) e contratempo (impulso).
Foi possível notar que a dificuldade da maioria é em acentuar os contratempos, ainda enganados pela força que tem a pulsação de apoio, que está sempre nos pés dentro da metodologia do Passo.
Mais uma vez em roda continuamos a brincadeira de tentar acertar combinações de acentos diferentes entre cabeças de tempo e contratempo, sempre num ciclo de 4 tempos.
Nesse dia sinto que não controlei o tempo devidamente e a oficina me parece ter passado rápido demais, talvez tenha acabado antes do horário previsto, já iniciando o conteúdo com o Mestre Edinho. É importante ressaltar que, só na segunda aula consegui chegar ao ponto do conteúdo que havia preparado na primeira, demonstrando que meu plano inicial não foi condizente com o ritmo do grupo e o tempo disponível para apresentar os conteúdos, sendo assim, não consegui entrar na parte da subdivisão em semicolcheia (vogal I) prevista para a segunda aula, muito menos introduzir a grafia não-convencional na cartolina, como anotado na avaliação da primeira aula.
Também percebi que não seria possível implementar, ainda na segunda aula a dinâmica da "roda improviso", com o qual cada participante estaria com um instrumento para criar. Também não utilizei o agogô como pulso de marcação, partindo para uma interação apenas com o corpo e voz.
Sinto que, daqui pra frente, o mais importante será a avaliar a consciência de pulsação e rítmica das participantes da oficina através de exercícios e jogos simples, com foco nas linhas do Samba-Reggae trabalhadas pelo grupo na prática da bateria, onde o corpo será o instrumento e ferramenta para entendimento das singularidades e marcações presentes nos ritmos.

Data - 12/05/2023
Mestre Edinho repassando o "TATUTI" na cartolina pendurada na parede, com alunos e alunas sentadas ao chão.
Plano de Aula 03
Tema: percepção musical e rítmica, subdivisão.
Objetivos específicos
- Praticar subdivisões e andamentos diferentes primeiro com o corpo, depois com a voz e por fim com o instrumento;
- Aproximar conhecimento de pulsação e subdivisão com a prática musical do grupo;
- Experienciar gestos simples de regência para grupos de percussão;
- Exercitar a criatividade com percussão instrumental em rodas de improvisação e composição coletiva.
Conteúdos
- Exercícios de aquecimento e alongamento para articulações dos ombros, cotovelos e pulsos;
- Variações da subdivisão em 4 tempos através de semicolcheias;
- Relação entre corpo e possibilidades de som na prática da percussão corporal;
- Criatividade na música feita com percussão instrumental.
Metodologia
Com o início da aula é solicitado às pessoas participantes que façam uma roda para alongamento e aquecimento das articulações de ombros, cotovelos e pulsos. Ao fim dessa prática é indicado o início de uma pulsação realizada com os pés, sem falar contar os tempos ou medir uma fórmula de compasso (estrutura de pulsação) específica, apenas com a intenção de, aos poucos, movimentar o grupo pela sala em um passo contínuo único, que cria, através ainda do silêncio da voz e do restante do corpo, uma pulsação audível ritmada, feita apenas com os pés e o andar de quem integra a prática da oficina. Essa movimentação do grupo é guiada através da fala que solicita aos participantes movimentarem-se pelo salão de forma desordenada, fluída e intuitiva com cuidado para que não haja choque com alguém, percebendo a relação de seu corpo com o espaço da sala e com os outros corpos, também procurando ouvir ativamente o som de seu passo na construção do ritmo coletivo feito com os outros passos.
Com um certo tempo de movimentação, é indicado para as integrantes do grupo acentuarem uma palma com as mãos sempre no tempo “1” - agora sugerido dentro de uma estrutura de pulsação em 4 tempos - evoluindo para dinâmicas de acentuação nos outros tempos e também nos contratempos (nas vogais “e”). Um jogo de palmas e pés para despertar a consciência rítmica sobre as possibilidades de acentuação dentro da estrutura de pulsação, ou fórmula de compasso proposta.
Através da continuidade desse pulso nos pés, pede-se que o grupo volte à formação de roda, para uma rodada de improvisos com a palmas (e outras partes do corpo) dentro da estrutura de pulsação em 4 tempos, utilizando-se de qualquer subdivisão, sem restrições quanto à quantidade de acentos (golpes rítmicos) intensidade ou variedade.
Após uma ou duas rodadas realizadas pelo grupo, fecha-se o ciclo e inicia-se uma nova roda, dessa vez com os instrumentos. Independente de qual instrumento se tem na mão, a nova proposição é de composição coletiva, semelhante à dinâmica do encontro anterior, com uma pulsação em 4 tempos organizada, indica-se que cada pessoa insira um pedaço de uma frase ou linha musical, uma disposição organizada de acentos que possam se somar com o todo (as frases criadas e apresentadas pelas outras pessoas na sequência da roda) de forma a criar uma composição coletiva instrumental com os instrumentos de percussão, parecendo ou não - dependendo do resultado sonoro obtido - com linhas percussivas em ritmos amplamente conhecidos.
Uma vez feita a construção da composição coletiva, ainda em roda, é sugerido que cada pessoa crie um improviso - semelhante à dinâmica anterior com as palmas - só que dessa vez com o instrumento. Para esse exercício é indicada a pausa de todas as pessoas na roda enquanto uma improvisa, mantendo somente a pulsação com os pés, que ajuda a dar a orientação de quando começa e quando termina o improviso, sempre num ciclo de 4 tempos.
Com a composição coletiva criada, um último desafio é proposto ao grupo: que se divida em duas linhas paralelas frontais (organizada de forma que as pessoas fiquem de frente umas com as outras e o professor possa passar no meio) para um exercício com regência. Ainda com a composição coletiva sendo tocada na estrutura de pulsação de 4 tempos desta vez o regente dará indicações de volume (intensidade, sendo sinalizada com a altura das mãos) e de entrada ou saída de algumas pessoas, criando variações da composição isolando certos instrumentos e linhas, podendo também trabalhar os lados com diferentes instrumentistas.
Ao fim da dinâmica, é realizado um breve momento de agradecimento pelas três aulas construídas até aqui e é aberta a rodada de contribuições sobre a metodologia ou eventuais dúvidas dos tópicos trabalhados.
Recursos
- Instrumentos de percussão variados para cada praticante;
- O corpo de cada integrante.
Avaliação
Mais uma vez, iniciei as aulas com a proposta de "aclimatação" pedindo para as alunas e alunos fecharem os olhos, ouvirem o som que estava ao redor em todo o prédio e na rua, procurando despertar atenção e consciência no presente para ajudar na percepção musical. Uma vez feito os alongamentos de pescoço, braços e ombros partimos para a pulsação comum com os pés mas sem andar pelo salão, dessa vez fomos direto para o estudo de acentuações de tempo/contratempo mas utilizando agora as palmas e a voz. Após alguns exercícios solicitando que acentuassem, por exemplo, o tempo 2 com a voz cantando "Dois" e o contratempo do 3 com a palma, pedi para interrompermos a pulsação e começássemos um novo jogo, de "passar a palma" a cada dois tempos. Assim, iniciamos a brincadeira que também é um artifício de percepção musical e rítmica onde, a pessoa que recebe uma palma na sua direção, deve devolvê-la a outra pessoa na roda, assim conseguimos concluir, com certa dificuldade, um dos exercícios previstos ainda pra segunda aula. Nessa oficina, estávamos em torno de 32 pessoas.
Pude, ao final da terceira aula, perceber que muito dos conteúdos planejados não encaixariam - a cartolina com a grafia da metodologia do O Passo, a roda de improviso com instrumentos - por questões de tempo, do fluxo do grupo e da organização em geral feita nas oficinas do Africatarina. Sendo assim, procurei integrar as próximas aulas com as linhas trabalhadas dentro do Samba-reggae - como a linha-base ou levada 1 do repinique cantada por Mestre Edinho no vídeo acima - que são incorporadas no arranjo geral da bateria, pois pude perceber uma dificuldade das alunas e alunos em se encontrar na pulsação dentro da batucada e executar as linhas corretamente, com suas características de acentuação.
Data - 19/05/2023
Mestre Edinho canta a Levada 1 do repinique
Plano de Aula 04
Tema: percepção musical e rítmica, acentuação.
Objetivos específicos
- Subdividir uma determinada pulsação com a voz e com o corpo;
- Exercitar uma linha específica do Samba-reggae com palmas.
Conteúdos
- Exercícios de aquecimento e alongamento para articulações dos ombros, cotovelos e pulsos;
- Pulsação e subdivisão em 4 tempos;
- Percepção Musical e Rítmica através do corpo;
- Acentuações da "Levada 1" do bloco Africatarina.
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Metodologia
Inicia-se o encontro sugerindo a escuta do que existe de estímulo sonoro ao redor, com a proposta de se conectar com o presente e perceber os detalhes acústicos do local, para ajudar a concentrar. Em cerca de 30 segundos de escuta já se iniciam as práticas de alongamento que priorizam: destensão da coluna, região lombar até cervical, rotação e alongamento do pescoço, aquecimento de punhos, braços e ombros.
Após esse aquecimento sugere-se uma pulsação constante com os pés, ritmada em conjunto, e a acentuação com voz e palma em diferentes lugares do ciclo de 4 tempos, como trabalhado em aulas anteriores.
Com a diferença entre os tempos e contratempos bem trabalhada, divide-se o grupo em dois, antes um círculo agora duas linhas paralelas, com as pessoas umas de frente para as outras. Nessa formação, com a continuidade do pulso em comum através dos pés é passado para um dos grupos para ser executada com as palmas o início, a primeira metade da levada-base (linha 1) do repinique no Samba-Reggae trabalhado pelo Africatarina. Para o outro grupo, é passada as acentuações da segunda metade da linha de 4 tempos da levada-base, para serem feitas de forma a "responder" o que o outro grupo "perguntou".
Com essa base fixada, são sugeridos "solos", linhas tocadas com as palmas somente por pessoas escolhidas de forma a tentar passar pelo maior número de pessoas e observar se todas estão conseguindo executar a linha rítmica.
Recursos
- O corpo de cada integrante.
Avaliação
A intenção dos gestos de pulsação em coletivo é de coesão e identificação interpessoal, para que o grupo trabalhe mais conectado. A proposta de trabalhar a percepção musical, através da percussão corporal com acentos de palma e voz, é para guiar a individualidade numa prática melhor orientada, numa batucada mais consciente, de si e das pessoas que estão tocando ao redor. Com essa aula pude experiencializar o que funciona de forma mais direta para o aprendizado do coletivo. Além dos exercícios habituais de pulsação e acentuação com pés, palmas e voz, dividir o grupo em dois, frente a frente, possibilitou uma nova forma de ativação da consciência individual em prol do todo, um novo engajamento em conseguir compreender e executar a linha.
Com a linha-base (levada 1) dividida entre as duas fileiras (como mostrada na ilustração ao lado, parte da folha onde planejei a aula) pude também brincar com as praticantes, fazendo uma espécie de "roleta do solo". Andando no meio entre as duas fileiras, abri meu braço de forma que ficasse direcionado paralelamente para duas pessoas ao mesmo tempo (uma em cada fileira de cada lado) e, contando até 4, pedia que o resto silenciasse, deixando duas pessoas em cada fileira (que estavam de frente uma a outra) responsáveis por manter a acentuação com as palmas em cima da pulsação coletiva. Essa brincadeira afetou a todos e todas positivamente, de forma divertida, contribuindo para a incorporação da linha rítmica.


Data - 02/06/2023
Esquema gráfico de planejamento da aula: fileiras paralelas e divisão das acentuações da linha rítmica
Prática de baquetas na madeira que são as travas da janela do Instituto
Plano de Aula 05
Avaliação
Cumprindo o acordo de tempo cedido a cada prática no início
das oficinas pelo Mestre Edinho, sinto que já é possível vislumbrar uma
sequência lógica entre aquecimento, preparação rítmica do corpo
e execução das linhas. A preparação rítmica do corpo foi dessa vez
estimulada pela brincadeira dos nomes falados em roda, passando de pessoa em
pessoa a cada 2 tempos, essa brincadeira se provou interessante porém um pouco confusa, principalmente por ser no início da aula e com mais pessoas chegando e entrando na roda em lugares que já haviam passado, então ficaram "de fora". Com os exercícios de palma e voz, dessa vez foram executados de forma diferente: ficamos praticamente em uma linha só, que tangia
os dois contratempos (dos tempos 3 e 4) pensados no plano de aula. Com a brincadeira das palmas fiz uma rodada de "solos" onde a roda perguntava os dois primeiros acentos (palma no tempo 1 e voz no tempo 2) e a pessoa na vez da solista respondia com as palmas dos contratempos desejados. Mesmo com um certo desafio a brincadeira foi um sucesso e todos puderam fazer seus "solos" demonstrando que haviam entendido, de certa forma, onde estava a acentuação dos contratempos desejados. Assim, duas fileiras - como na aula anterior - foram formadas mas, dessa vez, a linha estava sendo integralmente tocada por ambos os lados.
Tema: percepção musical e rítmica, acentuação.
Objetivos específicos
- Acentuar uma determinada subdivisão com a voz e com o corpo;
- Exercitar uma linha específica do Samba-reggae utilizando o corpo.
Conteúdos
- Exercícios de aquecimento e alongamento para articulações dos ombros, cotovelos e pulsos;
- Pulsação e acentuação em 4 tempos;
- Percepção Musical e Rítmica através do corpo;
- Acentuações da "Levada 3" do bloco Africatarina.
Metodologia
Mais uma vez inicia-se o encontro sugerindo a escuta do que existe de estímulo sonoro ao redor, com a proposta de despertar a percepção para os estímulos audíveis e ajudar a concentrar o grupo. Dessa vez com mais tempo, por exatamente 1 minuto de escutaalém dos as práticas de alongamento que priorizam: destensão da coluna, região lombar até cervical, rotação e alongamento do pescoço, aquecimento de punhos, braços e ombros.
Após esse sugere-se uma pulsação constante com os pés, ritmada em conjunto, e dessa vez, para descontrair, uma brincadeira de apresentação dos nomes de cada pessoa, onde o desafio é falar seu nome, um a um, em sentido horário na roda, a cada 2 tempos, passando de pessoa por pessoa. Com essa brincadeira na roda concluída, entra a acentuação com voz e palma em diferentes lugares do ciclo de 4 tempos, como trabalhado em aulas anteriores, direcionando especificamente para os contratempos (vogal "E" no método do O Passo) dos tempos 3 e 4 na pulsação de 4 tempos trabalhada até então junto com o grupo.
Esse reforço nesse ponto específico da pulsação é intencional para atingir a completude da "Levada 3" (uma das variações do repinique no Samba-Reggae, utilizada no arranjo da música "Faraó" de autoria do Olodum que está sendo praticada pela bateria.
Após o exercício das acentuações de contratempo sugerem-se dois grupos enfileirados em duas linhas paralelas, frente a frente, para estudo da linha rítmica em questão.
Recursos
- O corpo de cada integrante.

Data - 16/06/2023
Praticando na oficina junto com a bateria: após as aulas dadas, sempre toco nos ensaios para ajudar a entender o encaixe das linhas rítmicas nos arranjos das músicas
Plano de Aula 06
Avaliação
Desta vez Mestre Edinho não estava presente, mas prof. Sandra estava lá.
Conversamos um pouco no início para começar a integração, dando o tempo necessário para quem ainda estava a chegar, de iníco, até previamente à dinâmica de chegada, fiz uma coisa inusitada que não estava programada: pedi para quem estava na roda dar um grito alto, para fora, e que imediatamente depois se recolhesse em silêncio, observando auditivamente de olhos fechados por um minuto. A dinâmica de início pareceu divertida, era bom colocar um grito para fora, mas também foi especial para perceber a diferença entre sons, a relação entre dinâmicas de - num instante ter seu ouvido totalmente invadido por um som alto produzido por você - e no outro termos um grande silêncio (nunca realmente total) para produzir contraste e estimular a percepção auditiva. Feita essa rápida dinâmica iniciamos o alongamento e aquecimento triviais e o salão foi enchendo, de início éramos em 12, ao fim dessa segunda parte já estávamos em mais de 25 pessoas na roda.
Tema: percepção musical e rítmica, acentuação.
Objetivos específicos
- Acentuar uma determinada subdivisão com a voz e com o corpo;
- Exercitar uma linha específica do Samba-reggae utilizando o corpo.
Conteúdos
- Exercícios de aquecimento e alongamento para articulações dos ombros, cotovelos e pulsos;
- Pulsação e acentuação em 4 tempos;
- Percepção Musical e Rítmica através do corpo;
- Acentuações do "TATUTI" do bloco Africatarina.
Metodologia
Iniciando com a proposta de um minuto de silêncio e olhos fechados, para ouvir e absorver os estímulos sonoros externos. Após isso inicia-se as práticas de alongamento que priorizam: destensão da coluna, região lombar até cervical, rotação e alongamento do pescoço, aquecimento de punhos, braços e ombros.
Com o grupo reunido em roda, uma pulsação em comum é estruturada através dos pés para que a brincadeira da "flecha de palmas" seja executada, passando a palma a cada 2 tempos (dessa vez no contratempo!) de pessoa em pessoa na roda.
Em um certo tempo de evolução dessa brincadeira o pulso continua mas agora as palmas cessam e dão espaço a estudos de acentuação nos tempos e contratempos (apoio e impulso) e em seguida à uma nova dinâmica: imitar as palmas do regente do grupo. Pretendo criar algumas linhas aleatórias de palmas para estimular a percepção e reprodução dessas linhas em uníssono com o grupo, com isso o objetivo é evoluir até estar em uma linha rítmica que corresponda a todas as acentuações em "TA" do desenho rítmico do "TATUTI", uma espécie de representação idiomática trabalhada pelo Mestre Edinho para a principal linha de acentuações do Samba-Reggae, geralmente tocada pelas caixas na formação da bateria.
Essa levada é a mais central - e também a mais complexa, em termos de diferenciação nas acentuações - praticada pelo grupo. A proposta é que, num esquema de pergunta-e-resposta, após todo o grupo conseguir captar essa linha, seja feita a transição para o modelo em duas fileiras paralelas.
Nesse formato a intenção é fazer com que as pessoas se olhem e percebam o que a outra fileira está tocando, sendo assim irei separar os dois grupos em "linha base" que fará a subdivisão no peito, sequencial e sem acentos e a "linha acentuada" que será igual a linha trabalhada com o grupo em uníssono, representando as acentuações em "TA" da levada rítmica "TATUTI". Busca-se trocar a função entre as duas fileiras para gerar mais engajamento e desafio na atividade.
Recursos
- O corpo de cada integrante.
Data - 23/06/2023

Aproveitei para, ainda no alongamento, sugerir uma estrutura de pulsação com os pés e uma subdivisão decorrente nas mãos. Deu certo! Pude comprovar com os olhos (e ouvidos) que as pessoas presentes na roda (quer elas estivessem frequentando as oficinas desde o início do calendário, ou chegando naquele dia) conseguiam pulsar no tempo e dobrar a divisão desse tempo com as palmas, gesticulando num movimento de aquecimento solene e simples.
Após o aquecimento físico, fomos para a "aclimatação" rítmica, onde sugeri que fizéssemos a brincadeira da roda de "flechas de palma". Deu certo por um tempo. Para minha surpresa, pessoas novas e pessoas que não conseguiam entrar na brincadeira antes conseguiram acertar. Sempre fizemos com a estrutura de "2 tempos" (palma no tempo 2 e no tempo 4). As pessoas que menos acertaram já pertencem de longa data ao grupo, mas sinalizaram que o espaço entre tempos pode tornar a brincadeira complexa, então falamos sobre isso.
Seguimos com o desafio de sugerir que partes da pulsação em 4 tempos fossem devidamente acentuadas, como sempre, alternando entre cabeças de tempo e contratempo. Com um certo caminhar dessa proposta, evoluí para a brincadeira de ditado, de "pergunta e resposta" onde, dentro de uma pulsação em 4 tempos, eu faria uma frase com as palmas e essa mesma frase deveria ser respondia - nesse caso, igualmente reproduzida - por todo o grupo no conjunto de 4 tempos posterior.
Nessa dinâmica foi onde, assim como planejado, após algumas tentativas bem acertadas e outras mais confusas - percebendo que a noção de tempo, contratempo ainda é vaga para algumas pessoas praticantes da oficina - pude evoluir nesse ditado para as acentuações da linha do TATUTI, que é onde queria chegar. Nessa prática das acentuações, sugeri uma contínua resposta, para que todas as pessoas percebessem onde as palmas encaixavam em relação à pulsação conduzida pelos pés, que marca as cabeças de tempo. Ao final, perguntei quem reconhecia à qual linha pertenciam aquelas acentuações, mesmo com um grupo grande, quase ninguém soube dizer.
Com essa prática já consolidada, ddividi o grupo em dois lados assim como no plano da aula, para que um conduzisse a subdivisão como uma marcação constante, feita no peito, na palma ou através de algum outro argumento da percussão corporal, e o outro grupo fizesse as palmas acentuadas da linha do TATUTI, trabalhadas no exercício anterior.
A minha intenção era que os grupos, frente a frente e se olhando, apoiassem um ao outro a cumprir seu desafio. A parte explicitamente interessante foi quando tive a ideia, no meio da dinâmica de trocar os lados, conduzindo através da regência. O gesto funcionou muito bem e os grupos puderam se aliviar, trocando as linhas e com a entrada das linhas diferentes para cada um grupo um novo vigor no toque se estabelecia, provando que a dinâmica da diferenciação entre linhas auxilia no processo da atenção para o toque, para executar a levada.
Dessa forma, senti de um jeito muito satisfatório o trabalho com a pulsação, a acentuação e a levada do TATUTI.
Auxiliando, junto ao naipe das caixas, na linha do TATUTI praticada no instrumento durante o arranjo das músicas tocadas pela bateria.