

Instituto Arco-ìris,
Centro de Florianópolis.


Edinho Roldan, um dos fundadores do Africatarina e diretor musical do bloco.
Africatarina
Campo de Estágio
A segunda parte do estágio curricular realizado no semestre de 2023/2 seguiu com o projeto original "Africatarina: a virada do samba-reggae entoa a união entre África e Santa Catarina", mas dessa vez com um novo desafio proposto, enviesando por caminhos que explorassem novas ferramentas didáticas.
Todo o contexto do campo de estágio, do histórico do projeto e das decisões tomadas na fase inicial (semestre 2023/1, estágio I) você pode encontrar com detalhes na proposta da primeira parte, através do botão abaixo.
Agora, nos ocuparemos em entender os elementos que se sobressaíram, mais ou menos evidentes, da primeira edição do estágio e as escolhas que não foram tão solucionadoras quanto se pensava.
Acima de tudo, o foco dessa segunda edição do estágio foi envolver e engajar cada vez mais a turma de alunos e alunas para o aprofundamento da percepção rítmica utilizando o próprio corpo, mas, dessa vez, não se limitando apenas à batida dos pés e das palmas.
Planos de Aula
Os planos de aula e a sequência da metodologia "em classe" seguiram a estrutura do estágio anterior, que de uma forma geral se concretizaram assim:
Reunião do grupo e início da roda
Alongamentos
Aquecimentos
(corporais ou vocais)
Dinâmicas de Percepção
Prática musical com corpo e voz
Visto a sequencialidade do projeto e o desafio de elaborar planos de aula que respondessem ao interesse da turma, parti para uma escolha que sincronizasse novos desafios e, de certa forma, fosse uma revisão daquilo que havia sido tratado até então.
Fomos para aquilo que era - ao mesmo tempo não era - um novo caminho no aprendizado coletivo da percussão, começamos a utilizar a voz de cada pessoa e, mais ainda, iniciamos um trabalho de conciliar voz e aprendizagem de pulsação através do corpo.
Como uma evolução do que já foi registrado e anotado na primeira fase do estágio, a descrição que virá abaixo se propõe a dialogar com as ferramentas utilizadas para atingir os objetivos pedagógicos e estão categorizadas (separadas) em ideias elementares. Em outras palavras, nessa nova aba do portfólio pedagógico as ferramentas metodológicas, seu desenvolvimento e reflexão, estão agora organizadas por tópicos, conceitos e problemáticas - e não mais simplesmente por ordem cronológica - visando um olhar mais efetivo sobre os elementos e reflexões que compõem as escolhas pedagógicas.
Ressalto que, olhando para o calendário semestral, as estratégias e vivências estão descritas de forma cronológicas (acontecerem sucessivamente) e compreendem as sextas-feiras entre os dias 04 de agosto à 24 de novembro de 2023.
A Voz
"O Primeiro Instrumento é a voz,
e o melhor instrumento é o corpo"
- Naná Vasconcelos, 2016.
O segundo semestre de estágio se iniciou já em clima de coletividade com o grupo.
Por conta do sucesso na empreitada da primeira fase do estágio, as alunas e alunos das oficinas de sexta-feira do Africatarina já estavam familiarizadas com a minha inserção teórica, sempre no início das oficinas e, mais do que isso, já estávamos desenvolvendo em conjunto* um caminho processual para entendimento dos desafios rítmicos que a batucada do grupo trazia.
Como sempre (e assim foi até o final) em certas aulas - ou em todas - chegava alguém novo, e isso trazia sempre uma camada de desafio sobre como retratar ou retomar os conteúdos, sem perder o avanço para dentro da linguagem rítmica. Em quase todas as vezes a voz se demonstrou uma verdadeira aliada para concatenar e exemplificar ideias difíceis de executar com as mãos, ou despertando novos níveis de interesse nas pessoas participantes da oficina, que se viam instigadas a integrar com mais presença os exercícios propostos através deste meio que é um pouco mais democrático: a voz.
* Sublinho esta observação pois considero que, cada grupo ou turma, contém especificidades únicas, que interfere na aprendizagem coletiva e individual, movimentando os processos relacionais que acontecem entre integrantes da turma, incluindo quem está na figura de lecionar.
Essa qualidade das relações em coletividade, que pode ser estendida à quase todo nosso âmbito social, se traduz em sala de aula pelo seguinte fato: qualquer metodologia ou atividade pedagógica, por mais que se mantenha fixa, será interpretada e acontecerá de forma diferente a cada vez que for aplicada. Isso é um entendimento profundo e importante para a ação em espaços de ensino.
Esse contato com a expressão das vocalidades e o caratér rítmico que a voz pode ter, não é nenhuma novidade para as ferramentas de aprendizado rítmico comuns à grupos de percussão instrumental no Brasil. Provenientes, na maioria das vezes, de grupos culturais da Tradição Oral - como é o caso do Africatarina e do Samba-Reggae em geral - o uso das palavras e principalmente suas divisões rítmicas possíveis é muito comum para expressar ideias musicais, inclusive uma delas já era familiar e muito praticada pelo grupo, a linha do "TATUTI" .
Melhor exposta na primeira fase do projeto (estágio I), o "TATUTI" é um componente metodológio usado pelo mestre Edinho para ensinar a levada (linha musical) da Caixa, característica do samba-reggae e compreende uma subdivisão com preenchimento simétrico e acentos assimétricos.

Na foto, a cartolina com a linha rítmica do "TATUTI" colada na parede, sendo a principal proposta pedagógica trabalhada pelo Mestre de cultura popular nas oficinas do Africatarina.
Portanto o "TATUTI" foi - mais uma vez - o ponto de partida e de coalizão para início das propostas com o grupo. Mas por quê?
Uma das intençõe maiores da bateria, pude perceber enquanto integrante das práticas musicais, era acertar corretamente os arranjos desafiadores e todas as convenções idiomáticas características do gênero do Samba-Reggae e de outros gêneros instrumentais da percussão brasileira. O desafio era esse e, com o avançar do ano, a turma se viu envolvida em níveis cada vez mais complexos de detalhamento das linhas rítmicas, das viradas e das convenções. Dessa forma, um simples entender de tempo, contratempo, pulsação e subdivisão básicas já começava a se tornar pouco perto do nível de desafio que exigia a prática - posterior à minha aula, que iniciava "preparando" as/os instrumentistas para as duas horas de batucada que se seguiriam, completando as 3 horas de oficina gratuita.
Dessa forma, era preciso ir além de treinar conceitos básicos e começar a estudar as viradas e convenções arranjadas para o grupo, mas para não deixá-los com medo ou preocupados de antemão, partimos do "TATUTI" que já era um desafio mais familiar.
Nas primeiras aulas, além do trabalho de aquecimento dos membros posteriores, foi iniciado também um trabalho de aquecimento vocal, com exercícios bem básicos de respiração, controle da saída do ar e movimentação da estrutura muscular necessária para uma performance de voz. Exercícios simples, como passar a língua pelo interior da boca, rotacionar os lábios, ou até mesmo soltar o ar em sílabas distintas (SI, FU, SHI, PÁ) para movimentar e despertar a consciência do diafragma e do assoalho pélvico. Não foram necessários exercícios de reconhecimento melódico, ou vocalidades de alturas, pois o interesse e o objetivo dos aquecimentos era um só: despertar a consciência da voz, para cantar as sílabas características das levadas.
Já de início a estratégia de cantar o "TATUTI" se mostrou profícua pois unia a voz à pulsação com os pés - estratégia pedagógica utilizada durante todo o primeiro estágio, para ajudar a identificar os andamentos e tempos característicos da ideia de compasso. Portanto, foi no primeiro encontro da segunda etapa atuando, ainda no dia 18 de agosto, que já conseguimos, com grande maioria da turma, cantar coletivamente a linha do "TATUTI" com os pés em pulsação constante, acertando as entradas e acentuações característicos do ritmo.
Já nessa primeira aula também foi possível iniciar uma divisão interna do grupo, em 3 "equipes" ou "times" que se revezariam para sustentar a pulsação de uma das sílabas: ou o "TÁ" ou o "TU" ou o "TI". A intenção desse gesto foi de estimular ainda mais a percepção musical, desafiar a atenção na sequencialidade das sílabas e criar uma diferença entre as praticantes suscitando uma competição saudável em descobrir qual grupo acertaria o momento certo de proferir sua sílaba em conjunto - ao mesmo tempo buscava gerar um sentido de coletividade e interdependência onde, cada pequeno grupo era responsável pelo todo e ficava sempre visível que quando um grupo errava, dificultava ainda mais o acento correto do grupo seguinte, dependente deste último. Como em uma levada de percussão, onde cada nota só acontece uma após a outra.
A abrangência da ferramenta metodológica foi tamanha que os desafios para construir a dinâmica perduraram por 3 ou 4 encontros, sempre respeitando os tempos de aprendizagem individual e a verdadeira compreensão pelas partes do grupo. O formato da turma no espaço físico e as questões relacionadas ao aprendizado através da voz estão melhor relatadas nas seções seguintes "A problemática do Espaço" e "O 'Coral' Africatarina".
Pelos 4 encontros seguintes essa mesma ferramenta foi explorada, diversificando os grupos e sempre circulando as pessoas responsáveis por sustentar cada sílaba de forma aleatória. O que imprimiu grande desafio (e uma certa dificuldade) foi a inclusão da regência para poder sinalizar corretamente as acentuações de cada grupo.
Uma das primeiras tentativas lendo o TATUTI com as vozes divididas, usando a cartolina do Mestre Edinho como referência.
Aqui, já sem a cartolina, tentando reger o grupo para depois sair da regência, para que a turma busque autonomia na pulsação
O mesmo exercício anterior, demonstrando a dificuldade do grupo de se manter sem a regência
A regência é um recurso muito utilizado na comunicação didática e performática dos grupos coletivos de percussão no Brasil. Diferentemente do gesto regencial praticado na música erudita e coral, no caso dos blocos, o gesto serve muitas vezes para indicar levadas ou convenções inteiras apenas com um símbolo convencionado com as mãos.
Durante todo o semestre, a percepção sobre a regência foi estimulada para que as alunas e alunos se atentassem mais aos gestos sequenciados pelo mestre Edinho e por Ramires Ramos, o segundo diretor da bateria.
A regência serviu como um mote para a voz, uma vez que, na sequência do conteúdo - em setembro e outubro - todas as convenções sinalizadas para a bateria foram treinadas na voz.